Skip to main content

sobre matiz de estação de dione veiga vieira - há 23 anos




1. realmente até então
eu não havia lido o seu livro
com a atenção que ele merece
foi preciso dia vadio
para eu me deter sobre ele

dia que pegou chuva mais sol

e as coisas que direi acerca
do matiz de estação em realidade
me deixarão no limiar

do chato certame da crítica


2. o poema-programa que abre o livro dá
margem à brincadeira entenda brincadeira
como: relação sadia e ágil com a ventura
dura da existência então fiz assim:
ao verdadeiro convívio
da palavra ao gosto
ao finito aos traços aos fios aos trilhos


3. o crítico manja pouco de poesia
o poeta é um puxa-saco do poema
só o poema ele mesmo é que sabe
como explicar-se
ele mostra suas evidências
e incomoda com suas inevidências
por isso eu acho que os teus poemas me revelaram
duas coisas preliminares importantes

princípio de comunicação

assim ó:
“uma tarde roçando a margem dum mar
interno”
e:
“compasso de tempo
íntimo”

pincel-princípio de comunicanção

4. o matiz de estação
existe no signo
e na encarnação sensual das coisas

a enumeração

enumeração de todos os sexos
da fruta
todos os sexos
do cheiro
os sexos todos
dos bichos marinhos
o sexo solto
do vento
o sexo úmido
do gosto
o sexo folhudo das árvores

tua enumeração
sensitiva-retórica-rítmica
muito bacana e cachoeira

cachoeira puxa melodia


5. no poema “amplidão”
o prazer se rarefaz
o sensual muda de luz

6. admiro bastante o poema-ideograma
da página 31

7. em troca assigno à maneira do amplo
algarismo do relâmpago




ronald augusto
novembro, 1983

Comments

arteplant said…
23 anos antes já tinhas esse super talento para exercer uma apreciação minuciosa do poema - o poema em cada distinta grafia. Fico honrada em ter os teus sensíveis escritos sobre os meus poemas do “matiz de estação": esse, de 1983 e o outro, mais recente. Com o tempo, todas as nossas escritas mudam mas, a essência é sempre a mesma. Valeu, Ronald Augusto!
Anonymous said…
necessario verificar:)

Popular posts from this blog

nepotismo!

Amaralina Dinka, minha filha caçula de 11 anos, escreveu seu primeiro poema e me pediu para publicá-lo aqui no blog. Ela quer receber críticas e comentários. A MOCINHA FELIZ Eu acordei bem sapeca Parecendo uma peteca Fui direto pra cozinha Tomar meu café na caneca Na escola eu aprendi A multiplicar No recreio fui brincar Cheguei em casa Subi a escada Escorreguei, Caí no chão Mas não chorei Na hora de jantar Tomei meu chá Na minha janela Vi uma mulher tagarela.

DECADÊNCIA DAS CONQUISTAS

DECADÊNCIA DAS CONQUISTAS estou um nó neste lugar o que é     ocasião de me ver em grande aperto e por este respeito todo o meu     pensamento e o que mais sendo sério pude entesourar de tal contingência     que por mim mesmo resolvi tentar meu exílio tem de largo e comprido     a medida de uma vida sem paz quando mudei o tempo concedeu-me     alma nova pois nela não havia mais que pastor de gado sem remanso     que fica preso à terra e à família e faz vistagrossa a outras terras     e outras borrascas para as quais as gentes de mar vão em amanhecendo     a pontos onde ninguém com sinais agora acho-me num destes pontos     e espanto o quanto posso a ponta de arrependimento que me chaga     e embrulha-me semelhante a onda tive vista de muitos desesperos      moribund...

antipoema para a literatura branca brasileira

  por uma literatura de várzea por uma literatura lavada de notas de pé de página por uma literatura sem seguidores por uma literatura não endogâmica por uma literatura infiel à realidade por uma literatura impertinente por uma literatura não poética por uma literatura que não capitule à noção de "obra", acúmulo de feitos por uma literatura que não seja o corolário de oficinas de escrita criativa por uma literatura que não sucumba à chapa de que o menos é mais por uma literatura desobediente ao mercado livreiro-editorial por uma literatura imprudente por uma literatura sem cacoetes, isto é, o oposto do que faz mia couto por uma literatura que não se confunda com o ativismo de facebook por uma literatura que não seja imprescindível por uma literatura sem literatos por uma literatura, como disse uma vez lezama, livre dos tarados protetores das letras por uma literatura sem mediadores de leitura por uma literatura não inspirada em filósofos fr...