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por via da linguagem

A poesia não existe, o que existe é a obra do poeta. Seu percurso poético-textual; seus poemas. Quando pensamos em poesia devemos pensar na linguagem de alguns poetas. Isso sim é verificável. A ideia ingênua ou romântica de poesia, isto é, a poesia antes do poema (forma verbal), é que está na base dos nossos primeiros exercícios poéticos: quando começamos a escrever tentando imitar uma imagem consagrada de poesia (que se aproxima do escrever bonito que lança mão de frases excessivamente adjetivadas e que são quase que o decalque das nossas emoções). Por outro lado, mesmo o poema, esse objeto verbal que visa a um efeito estético e a uma deriva semântica, não é um vaso sacrossanto que guarda, como num passe de mágica, o fugidio instante poético; o poema, segundo Octavio Paz, é essa máscara que oculta o vazio, em outras palavras, o poema é linguagem. Toda a aventura da criação poética, todas aquelas definições que nutrimos a respeito do fenômeno poético devem ser testadas por v...

octassílabos

erra em ondas meu pensamento pelos ângulos do lugar as paredes brancas de nada um corte transversal, solar as cortinas se mantêm feias esse plissado industrial essa cor, de ordinário, pálida dão a tudo um quê de oficial o rumor ar condicionado piso de hospício sem ranhuras ou de laboratório clínico quadrículo infenso à cultura no entanto aqui a estudantada faz o exame vestibular cumprindo seu rito de classe visando além ser dr. k. poucos negros, quase nenhum, entre os que se curvam às provas isso parece confirmar: não deviam passar da porta [12 de janeiro de 2016]

cazé e os pequenos insetos da afeição

os microafetos transfigurados em poemas wladimir cazé e sua poesia de microshapes o exoesqueleto da métrica infusa no inseto áporo do verso jamais livre jamais abandonado ao capricho da mera rixa com o caro virtuosismo pós-cabralino e nem por isso a incúmplice desafeição ao ácaro dos ritmos inumeráveis da memória oral mas os decassílabos esdrúxulos [ao menos entendedor: em esdrúxulas ] onde perseveram traças tracejados de percevejos em troças severas toda sorte de sórdidos animaizinhos dos cantos encardidos atrás de cômodas sob camadas de pó de pele velha enquanto os mais titãs ao longe de viés cuidando caterva geração ícaros jandaia e migração tudo à contrapelo dessa fauna miúda em faina muda com quem concerta cazé

decassílabos, não faz muito

decassílabos não há consolo, canção de negaça timbre vazio onde agora rebrilha um reiterado tranco de fusível em casa antiga sem luz ou manilha mesmo que o cristão politone hosanas graças ternas por toda redenção para onde suas pernas querem ir, não vai nisso ciência nem razão ociosos passos dir-se-ia dança não fosse errar coisa que muito o abala esse dançarino ao modo de prosa é peregrino que cansaço exala que salva o terço e não a terza rima que, genuflexo, estanca ensimesmado que é do hábito bastardo exemplar que é de rezar e não pensar no caso [13 de janeiro de 2016]

Só um momento, senhor Bertold Brecht!

Primeiro levem os brancos Eu não me importo com isso Porque eu não sou branco Em seguida quando encontrarem alguns operários brancos racistas Levem também, eu estou andando pra eles Depois prendam os miseráveis brancos racistas Eu dou de ombros Porque eu não sou um miserável branco racista Depois, se conseguirem, agarrem um desempregado branco Um desempregado branco a menos na fila Melhora as chances de emprego de um desempregado não-branco Eu sei que vocês pretendem me levar também Mas antes disso, como diz o adágio, Terei ao menos testemunhado seis ou sete Desses brancos que embaçam a nossa vida S erem enforcados nessas árvores

não conheço

não conheço nenhum branco velho nenhuma branca velha nenhum branco fujão nenhum genocídio de jovens brancos nenhuma branca maluca nenhum branco encardido nenhuma beleza branca nenhum branquinho da beija-flor nenhuma situação branca nenhuma branca diaba nenhum branco de ganho nenhuma peste branca nenhum branco de alma preta nenhum branquinho do pastoreio nenhum branco belchior nenhuma branca do cabelo escorrido nenhum branco como o dia nenhuma branca lu nenhum branco dito cascavel nenhum branco drama nenhum futuro branco

#selfiepoesia - Ronald Augusto