Skip to main content

a indisciplina do leitor-colaborador


a leitura criativa, "a lápis", de esboço e estudo, interessada e interessante, realmente re-inventa o texto de partida, inclusive no aspecto sintático. re-inventa-o no sentido em que ele é proposto noutros termos no eco ou no oco da algaravia do intelecto do leitor, "lugar" produtivo da réplica futura. se o como e o-que-dizer são inextrincáveis, então, quando a leitura "indisciplinada" desentranha uma pluralidade de sentidos, também traz à tona diferentes modos de se agenciar os elementos materiais da linguagem: identificação fundo-forma.

portanto, o poema do poeta continua quieto, ali, na página do volume caprichoso. nenhum crime de lesa-autenticidade foi perpetrado. mas, em contrapartida, o leitor criativo agora leva entesourado em seu espírito uma rosácea de formulações possíveis para esse mesmo poema. duplo virtual, proliferante e indecidível, vazado noutro código e em suporte rarefeito. leitura-experiência.

Comments

Paulo de Toledo said…
companheiro, tô (re)lendo um livro sobre estética da recepção, organizado pelo luiz costa lima. é muito bom. teu texto me fez lembrar de algumas coisas q li no livro.

abração,

paulo

Popular posts from this blog

em inglês, por favor

3 poemas de à ipásia que o espera traduzidos para o inglês folhas de louro coroavam o árduo trabalho do herói e do poeta agora temperam apenas o feijão rotineiro que consagra a vianda sempre envolvida com zelo em pano puído prefiro-as assim folhas de louro mortais colhidas pelas mãos úmidas dessa abissínia nutriz do meu desejo bay leaves crowned the hard work of hero and poet now they merely season the daily beans that consecrate the meal always wrapped with care in a cloth raggedly i prefer them that way mortal bay leaves harvested by the moist hands of this abyssinian nurturer of my desire [Tradução de C. Leonardo B. Antunes] à custa das pétalas do ventilador de teto o bafo morno da noite focinha o sono adorado de ipásia a água rápida do arroio um apanhado de carqueja o longo dia inteiro do verão at the expense of the petals of theceiling fan...

ÉPITAPHE

VILLON, François n. 1431  EPITÁFIO aqui neste lugar jaz e dorme alguém que Amor fulminou com flecha, um escolar pequeno e pobre. nome: françois villon. vilão, a pecha. não teve nunca escritura de terra. doou tudo, o vulgo comenta à larga: cestos, pães, estrados, mesas. comparsas, dizei esta versalhada:  Rondeau Repouso eterno seja dado a este, Senhor, e claridade desmedida, pois em vida bolso sempre raso teve e no seu prato coisas mal cosidas. rente cortaram-lhe a barba nascente, como a um nabo que se rapa a película. repouso eterno seja dado a este. Rigor o forçou ao exílio, como se peste, e esfolou-lhe a bunda de pelica, não obstante haver dito ele, à risca: “eu apelo!”, termo de fácil exegese. repouso eterno seja dado a este. ÉPITAPHE Ci gist et dort en ce sollier, Qu’amours occist de son raillon, Ung povre petit escollier, Qui fut nommé françois villon. Oncques de terre n’ot sillon. Il donna tout, chascun le scet: ...

antipoema para a literatura branca brasileira

  por uma literatura de várzea por uma literatura lavada de notas de pé de página por uma literatura sem seguidores por uma literatura não endogâmica por uma literatura infiel à realidade por uma literatura impertinente por uma literatura não poética por uma literatura que não capitule à noção de "obra", acúmulo de feitos por uma literatura que não seja o corolário de oficinas de escrita criativa por uma literatura que não sucumba à chapa de que o menos é mais por uma literatura desobediente ao mercado livreiro-editorial por uma literatura imprudente por uma literatura sem cacoetes, isto é, o oposto do que faz mia couto por uma literatura que não se confunda com o ativismo de facebook por uma literatura que não seja imprescindível por uma literatura sem literatos por uma literatura, como disse uma vez lezama, livre dos tarados protetores das letras por uma literatura sem mediadores de leitura por uma literatura não inspirada em filósofos fr...