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Eduardo Costley-white e o sentimento de Moçambique

Eduardo Costley-white Conheci o poeta Eduardo Costley-white em São Paulo, se não me engano no ano de 1987, durante o I Encontro Internacional de Escritores Negros , governo Franco Montoro. Graças a esse acontecimento que não nos entediou de modo nenhum, mantivemos um contato diário ao longo de quase uma semana levando a cabo uma divertida troca de ideias e de poemas. De imediato me identifiquei com Eduardo e com Marcelo Panguana (outro grande escritor moçambicano da delegação), principalmente pelo fato de sermos da mesma geração. Hoje vejo nisso a razão pela qual não encontrei a mesma satisfação no contato com a delegação angolana que, não obstante ser composta por alguns poetas importantes (Manuel Rui e Ruy Duarte de Carvalho, por exemplo), era formada, grosso modo, por um pessoal de uma geração uns vinte anos mais velha do que a nossa. Como normalmente acontece, depois de encontros entusiasmantes e cheios de expectativas, o repentino afastamento é engolido pelo contínuo da...

por um rock menos ordinário

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cinco questões

Respostas ao amigo Roberto Amaral, em http://lemotjuste7.blogspot.com.br/2013/07/ronald-augusto-queima-roupa.html?spref=fb Ler? Duas coisas sobre essa questão: (1) ler é mais importante do que escrever; e (2) reler, do ponto de vista do escritor, é mais importante do que ler. Borges, Jorge Luis, é o grande exemplo dessa meia tese, isso porque o dom da cegueira progressiva contribuiu para que ele se dedicasse mais à releitura, espécie de rememoração, do que à leitura (que supõe o agora e o cumulativo). Se o prazer da leitura se extinguirá restando fora do alcance da vista, então melhor reter na memória imaginativa, por via da releitura, o que foi feito de melhor. Escrever? Subproduto da releitura. Repetir os mestres para aprender. Ser lido? Efetivar esse singular ato da comunicação poética. Reconhecer a vontade ou o desejo de linguagem do leitor. Admitir que as interpretações resultantes desse desejo são infinitamente mais importantes do que as que o esc...

rasuras marginais à carne falsa

patrícia, a prosa nervosa de carne falsa . às vezes esse convite à colaboração do leitor. mas depois, caso esse mesmo leitor ninguém se recuse ao desafio, a autora dá-lhe um piparote. portanto, uma hostilidade enviesada na construção do texto, uns trancos inesperados, umas minúsculas emboscadas no logos da narrativa, uns cortes mallarmaicos que revelam espaços gráficos. os eles e elas , mesmo que mais ou menos prototípicos, se esfacelam em vaginas, sêmen, calcinha, gastrites, prédios acesos no escuro estelar, habitáculos do absurdo. e às vezes deparamos o epos resolvido numa linha que se rompe, de repente, contra a brancura da página, um respiro. esses contos de uma linha não merecem o nome de minicontos, são o acento átono, a pausa a contrapelo da redundância novelística, contra a qual patrícia investe. e o eu de sua prosa, a voz lírica, lúbrica, é mais a presentificação no solo duro da linguagem do solilóquio de um ego scriptor do que ...

meu barato

barato uma irritação, uma irradiação, essa hostilidade semiótica com o rame-rame de certa tradição poética aqui e alhures barato algarávico e putifar putanheiro de sereias ambíguas todos os iauaretês urram em sua poesia que extravaza, que exorbita fragrância de noigandres barato como bravata ao poema noioso a poesia não é mais suficiente o poeta não é mais um sufi ricardo manda à merda o ágio associado à hagiologia do poeta lágrimas no olho do peixe morto: “íris-náusea” barato viver de viver a poesia é uma espécie de miséria verdadeira “vida bosta” que ricardo pedrosa alves cospe que nem linguagem sobre os opúsculos líricos da produção dos iguais em imorredouros metros inumeráveis a poesia como prova dos nove vezes nada mas “poemas bons são porrada” quando habemus poemas bons sobre barato afivelo a máscara de baudelaire mestre (na acepção em que ezra pound o empregava) e digo, “através de”, o seguinte: no conjunto de poe...

anotações para uma outra aula

Estilo = aquele conjunto de procedimentos através dos quais o texto consegue se desviar das normas estatísticas da linguagem, da língua.  Há a norma culta escrita do português / mas a língua falada tem mais estilo porque desvia da norma, no entanto, quando a ocorrência de um desvio linguístico se torna mais elevada, esse desvio vira uma norma estatística. O que acontece na prática comunicativa utilitária: os elementos linguísticos nessas mensagens estão, via de regra, automatizados. Já na poesia se dá o oposto: os elementos, os efeitos linguísticos são desautomatizados ou são postos em primeiro plano. Elementos linguísticos automatizados não chamam atenção para si; simplesmente comunicam, levam a mensagem. São portadores de mensagens. Elementos linguísticos automatizados ocorrem com probabilidade muito alta, portanto, são redundantes. Assim teremos chance de poesia sempre que identificarmos num texto em termos estatísticos uma baixa taxa de ocorrência de elem...

quem se considera

Quando leio os poemas (as tiradas) de Paulo Leminski é como se eu estivesse lendo poemas de poetas da minha e da geração subsequente tal é a facilidade com que essa poesia se oferece à imitação. Afinal, quem joga com quem? Mas há algo de mórbido ou de fantasmagórico nisso, porque – admitindo que o ar esteja efetivamente viciado – parece que Leminski é que posa como o diluidor deles. Uma originalidade tão pavimentada quanto exausta.