Tuesday, November 10, 2009

esboço para uma futura resenha

O editor tem a prerrogativa de aproveitar o espaço da orelha para vender o seu peixe. Afinal, trata-se também (mas não apenas) de um negócio, e é natural que não queira jogar grana pela janela. De outra parte, pessoalmente, acho que as orelhas deveriam ser assinadas. Alguém deve dar a cara à tapa. Quando este tipo de texto fica nas mãos do editor ou de algum dos seus subalternos, a perspectiva daquilo que deve ser adiantado ao leitor à respeito do livro entra na conta do apelo à compra-venda imediata, ou seja, o que está em jogo é convencer o leitor indeciso a abrir sua carteira, pois para o negociante desse segmento (como de qualquer outro), dinheiro bom é dinheiro que sai do bolso do leitor para se precipitar no seu.

Mas as duas pontas se atam num processo cuja circularidade não absolve nem condena nenhum dos lados. Afinal, orelhas que mais se assemelham a releases são produzidas em consideração a um leitor que aspira talvez sem a devida consciência a um monitoramento, a uma modelagem de tal ordem do seu desejo.

Wednesday, October 28, 2009

para aumentar o repertório e o desempenho

De 05/11 a 17/12/2009
Oficina de criação poética
com Ronald Augusto

Inicia no dia 05 de novembro a oficina de criação poética com o escritor Ronald Augusto. Os encontros acontecerão semanalmente, sempre às quintas-feiras, das 19h às 21h. Serão abordados conceitos e apresentadas propostas para aumentar o repertório e o desempenho da escrita criativa. Além de reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade e divulgar a riqueza da produção literária brasileira, a atividade pretende auxiliar os participantes a identificar no interior do poema (ou do texto) os elementos da função poética da linguagem. Ou seja, a ler, na obra literária, o que está de fato escrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que se gostaria de ler.

Ronald Augusto também trabalhará elementos como sonoridade, rima, ritmo, imagem e figuras de linguagem. Mostrará como perceber que forma e conteúdo são inseparáveis, bem como a tomar consciência de que a literatura - e a poesia mais ainda - não é uma janela para o real, mas propõe um sentido provável para ele.

Oficina de criação poética | 16 horas
Com o poeta Ronald Augusto
Quando: De 5 de novembro a 17 de dezembro de 2009, às quintas-feiras, das 19h às 21h.
Investimento: R$ 220,00 à vista ou R$ 250,00 em duas vezes.
Professores sócios do Sinpro/RS têm 20% de desconto.

Inscrição: clicando aqui ou na sede da Fundação Ecarta (Av. João Pessoa, 943 - Porto Alegre).

Ronald Augusto

É um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parceiro de Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, como: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue EUA (1995), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras. Entre essas publicações, um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, ele recebeu ainda o Troféu Vasco Prado, conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001; e o Prêmio Apesul Revelação Literária, em 1979.

Atualmente, Ronald Augusto realiza palestras, oficinas e cursos sobre música e poesia contemporânea e visual. Em 2007, ao lado do poeta Ronaldo Machado, criou a Editora Éblis, voltada para a poesia. É editor associado do site www.sibila.com.br.

Entre suas principais publicações estão Homem ao rubro (1983), Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas (2004). Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).


ronald augusto http://poesia-pau.blogspot.com

Tuesday, October 06, 2009

questões relativas à editora éblis


ronald(o)

- Como a maioria dos escritores chegam até a Éblis? (Eles enviam os originais ou a editora os encontra?)

Nos últimos tempos, devido à visibilidade da editora (histórico dos lançamentos, website, etc.), muitos autores pretendentes têm nos procurado. Sempre solicitamos aos interessados em publicar pela Éblis, o envio de uns 5 poemas para analisarmos o estágio criativo em que se encontra a linguagem deles, a partir desta amostra é que tomamos a nossa decisão. Infelizmente, até agora, ainda não recebemos nada que nos entusiasmasse. Todos os poetas que publicamos vinham sendo acompanhados por mim e pelo Ronaldo, já admirávamos o percurso textual deles. O editor é uma espécie de “olheiro”.
- Quais são os critérios para escolher quem será publicado? (O que os leitores querem ler; como está a qualidade literária da nova geração)
As demandas desse internauta-leitor preguiçoso da contemporaneidade não nos interessam. Não somos facilitadores de nada. Nossos critérios são os mesmos de sempre: qualidade estética e um apetite pelo risco da invenção.

- Como a internet interfere no trabalho das editoras? A Éblis usa a internet para algum fim específico? (Facilita ou complica a publicação; torna os escritores mais independentes)

No nosso caso, ela torna mais ágil o diálogo com a produção poética contemporânea. Um passeio prospectivo pelos blogs de diversos poetas atuantes pode ser extremamente pedagógico. Por meio do website também comercializamos os títulos do nosso catálogo.
- Como é o relacionamento da editora com os autores?
Em poucas palavras: é um relacionamento franco, pois não abrimos mão de uma dose necessária de afeto; o trabalho envolve parcerias, por exemplo, nossa distribuição ainda não é tão boa e, portanto, o êxito da edição também vai depender da colaboração do autor; os autores nos sugerem outros nomes, deste modo, vamos ampliando os contatos e a sobrevivência desta intervenção cultural.

Monday, September 21, 2009

os poETs novo CD


Friday, September 11, 2009

diz trair a tradição



A tradição poética pode ser interpretada como uma infinitude de vozes em atrito que, em fim de contas ou a certa distância, resulta em harmonia, ou melhor: sugere uma coesão dinâmica onde verticalizações sincrônicas restauram o acervo da diacronia para as contingências do agora-agora. Cada poeta ou movimento, na conciliação de suas contradições, representa, portanto, um duplo abreviado de semelhante tradição. Qualquer experiência de linguagem é sempre irredutível e dura em seu centro, nenhuma delas se deixa comparar com facilidade. Mas, o mais das vezes, alguns dos seus funcionários — aqueles que só trabalham em benefício de si próprios — se esforçam em fazer com que elas se aniquilem umas às outras. Pois, cada poeta com sua obra se refere sem reservas (seja como continuação, seja como ruptura) à tradição, e não raro a reivindica apenas para si (seja como seu crítico, seja como seu guarda-costas). Do mesmo modo, jamais conseguirá admitir sua partilha sem anular-se. Entretanto, esse poeta virtual assina inadvertidamente o contrato do seu declínio ao buscar ou ao alardear a morte de todas outras linguagens com as quais, talvez contra a sua vontade, estivera entretecendo alguma forma de interlocução.

Não se quer aqui fazer a defesa da indiferenciação hipocritamente tolerante, nem de suportar a figura do sujeito que prefere se ajustar às regras contemporâneas deixando de se situar porque parece estar claro, para ele, que foram cancelados os dilemas poéticos e ideológicos. A copiosa produção literária dos últimos tempos, conformada à escala e à escola do mercado, impôs uma trégua cínica aos conflitos e combates que até há bem pouco tempo geravam ao menos precipitações, ou seja, movimentos. Havia um contínuo e provocante abandono dos territórios conquistados. As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

De outra parte, a insistência um tanto dalibanesca na demonstração de que a poesia está em crise (em sentido fraco), pode não passar de um truque de propaganda daqueles que, a partir do quadro de desolação que pintam, pretendem recompô-la desde seus aposentos presunçosos onde se encontra, podemos supor, um computador conectado.

Sunday, August 09, 2009

em defesa da arte

by augusto de campos

leda tenório da motta



Leda Tenório da Motta rebate crítica de Sergio Miceli que, com quase 25 anos de atraso, reprisa as censuras feitas por Roberto Schwarz ao poema “pós-tudo” de Augusto de Campos. A seguir, alguns trechos do excelente artigo, cuja íntegra se encontra em: http://sibila.com.br/index.php/critica/722-literatura-sociedade-e-cinismo-em-sergio-miceli


De fato, é preciso um grau a mais de inadvertência em poética para escrever, como Miceli escreve, que Max Bense já não nos deveria interessar agora que o concretismo “está em baixa”. Um movimento estético em baixa? Que maneira é essa de falar? Estaria o autor de A noite da madrinha – livro reputado entre comunicólogos sociais, que versa sobre programas de auditório – importando diretamente das mídias padrões de medição? Se essa rudeza no trato vem a calhar, porque dá testemunho das possibilidades do crítico, nem por isso nos dispensamos de corrigir o que é também uma falha de informação...


O que mais falta nessas arguições piedosas da literatura, que põem a sociedade e suas injustiças por frente – como se a sociedade escrevesse poemas –, é a própria literatura. Se conhecesse The critic as artist de Oscar Wilde, este crítico de mão pesada e poucas letras talvez concedesse que artistas vivem fora da realidade, em suas próprias esferas. Que Leonardo, por exemplo, não encontrou fora de si aquele sorriso da Mona Lisa que pintou, já que ele é coisa mental...


Mas tudo bem. Seria mesmo demais pedir que um especialista em Hebe Camargo – o principal tema de A noite da madrinha, que, aliás, também foi reeditado, em versão melhorada, mais ou menos recentemente – se interessasse por evanescências e refinamentos de linguagem, ainda que não possa haver poesia sem isso.”

Tuesday, July 07, 2009

signos transatlânticos

prisca agustoni e eu, juiz de fora, 2008

Doutoranda em Letras da PUC Minas, Prisca Rita Augustoni de Almeida Pereira foi premiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do Ministério da Educação (MEC), pela melhor tese na área de Letras / Lingüística do País.

O trabalho é intitulado Atlântico em movimento: travessia, trânsito e transferência de signos entre África e Brasil na poesia contemporânea em língua portuguesa. O Prêmio Capes de Tese 2008 será entregue no dia 22 de julho, em Brasília.

O Prêmio Capes de Tese concede, desde 2005, distinção às melhores teses de doutorado defendidas e aprovadas nos cursos reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) de todo o País, considerando-se os critérios de qualidade e originalidade. O trabalho é selecionado em cada uma das áreas de conhecimento.

Sob a orientação da professora Maria Nazareth Soares Fonseca, o trabalho baseou-se nos signos simbólicos que foram trazidos pelos africanos para o “Novo Mundo”, fazendo brotar a produção literária que liga o Brasil e a África. O objetivo da tese foi destacar a maneira como a diáspora negra interfere na estrutura rítmica, na língua portuguesa canônica e nas fontes culturais de matriz africana da produção de alguns autores das literaturas africana e brasileira. Os poetas pesquisados foram os brasileiros Ricardo Aleixo, Ronald Augusto e Edimilson de Almeida Pereira; os angolanos Paula Tavares e Ruy Duarte de Carvalho; e o moçambicano Luís Carlos Patraquim.

Para a professora Maria Nazareth Soares Fonseca, o destaque do trabalho é o fato de esses escritores estudados fazerem o percurso de volta à África, criando expressões culturais específicas resultantes do contato entre os povos. Prisca Agustoni avalia a importância da premiação: “Primeiro, sob o aspecto individual, gosto de ver o trabalho ser reconhecido, mas mais que isso, é importante tornar visível a relação entre o Brasil e a África”.

Thursday, June 25, 2009

um lance de baudelaire

baudelaire, charles, 1821-1867


Do observatório de sua mansarda, Baudelaire estreita a modernidade em suas mãos. Sobre o vazio papel defendido pela brancura, ele exercita a sós e ao mesmo tempo embebido dos estereótipos da rua (pois será preciso tropicar “sur les mots comme sur les pavês” para que suas alegorias se tornem menos rarefeitas), o mundo da sua linguagem que, não obstante seja crítica com relação aos discursos cobertos de “pátina poética”, simula evadir-se enquanto tenta recusar a linguagem tumultuária, “le bric-à-brac confus”, de um mundo de passagens, prosaico e derrisório que, a contrapelo, encontra nele o seu maior tradutor e comentarista:

Je ne vois qu’en esprit tout ce camp de baraques,
Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts,
Les herbes, les gros blocs verdis par l’eau des flaques,
Et, brillant aux carreux, le bric-à-brac confus.

(...)

Paris change! mais rien dans ma mélancolie
N’a bougé! palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,
Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs
.

Só na lembrança vejo esse campo de tendas,/ Capitéis e cornijas de esboço indeciso,/ A relva, os pedregulhos com musgo nas fendas,/ E a miuçalha a brilhar nos ladrilhos do piso. (...) Paris muda! mas nada em minha nostalgia/ Mudou! novos palácios, andaimes, lagedos,/ Velhos subúrbios, tudo em mim é alegoria,/ E essas lembranças pesam mais do que rochedos. (Trad. Ivan Junqueira)

Baudelaire não se projeta para o mundo, mas, antes, o sonha, a seu modo, nos transes da linguagem, na “oficina irritada” de uma percepção do poema derivada da metalinguagem de Poe, a partir do qual, no que toca a imperícia compositiva, não há indulto possível: “Only this and nothing more”. Como assinala Walter Benjamin, “Baudelaire conspira com a própria língua. Calcula seus efeitos a cada passo”, sabe que o incógnito e a ambigüidade são as leis não só da sua em particular, mas da poesia que se fez e se fará, antes e depois de suas flores deletérias. O cálculo e a meticulosidade do Baudelaire mestre (me sirvo do termo na acepção em que Ezra Pound o empregava), são galvanizados na figura do artífice trôpego por mauvaise conscience, o trapeiro que fuça o moderno da vulgaridade quotidiana sob os despojos da sua ideologia e do seu étimo, em busca de um eco épico, ou de um heroísmo seduzido pela entropia do trágico: “Temos aqui um homem: ele deve apanhar na capital o lixo do dia que passou, tudo o que a grande cidade deitou fora, tudo o que perdeu, tudo o que despreza, tudo o que destró, ele registra e coleciona. Coleciona os anais da desordem, o Cafarnaum da devassidão, seleciona as coisas, escolhe-as com inteligência; procede como um avarento em relação a um tesouro e agarra o entulho que nas maxilas da deusa da indústria tomará a forma de objetos úteis ou agradáveis”. O poeta-trapeiro baudelairiano mapeia a metrópole a partir de um escrutínio semiótico, seleciona e combina sintagmas-coisas, fragmentos, objetos-antiguidades colecionáveis, desentranhados pósteros à dissolução do presente, visando um poema, um modelo de sensibilidade, um sonho exato sob pórticos voluptuosos.

Monday, May 25, 2009

um poema visual

kânhamo, 1987

Thursday, May 14, 2009

dois poemas de manuel bandeira



O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


No poema “O bicho”, Manuel Bandeira recorta a silhueta de um bicho “Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos”. Num exame mais cerrado, descarnado de qualificativos poeticamente corretos, o poeta começa a ajustar o foco da sua máquina verbal de produzir efeitos, e numa progressão de enquadramentos, partindo desde o mais difuso até o mais nítido e duro, nota que “O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.” O desenlace do poema, que não chega a surpreender - acho inclusive que essa possibilidade nem é a que mais interessa a Manuel Bandeira -, nos diz que o bicho “era um homem”, ou que o bicho fora um homem. Com efeito, o poeta não se surpreende com tal metamorfose regressiva (notar a degradação do sujeito e o desafeto que infunde, escalonados na simbologia prosaica dos animais escolhidos: o cão, o gato, o rato, como degraus por onde desce, indo do animal civil ao mais incivil, e não sendo sequer a sombra do último). Essa espécie de transmigração asquerosa, não sobressalta o poeta, pois a locução “meu Deus”, do verso final, espremida entre vírgulas e quase opaca, à boca pequena, não chega a indicar uma franca desilusão, mas sim um amargo reconhecimento acerca da nossa capacidade para a dissipação trágica que secunda a entropia com que nos debatemos.


Poema tirado de uma notícia de jornal



João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Passos da cruz do personagem do “Poema tirado de uma notícia de jornal” (cabe lembrar que sua fatura é de meados da década de 1920, período em que o ideário estético modernista enfrentava resistência de lado a lado): o nome paródico, João Gostoso, é uma alcunha, talvez de um bamba do samba, um apelido que indica em retrospectiva uma biografia de suburbano conquistador amoroso; João Gostoso é pobre e mora no morro; João Gostoso é um homem só, no momento não é temido nem estimado; João Gostoso dá cabo da própria vida. O desenho rítmico do poema de Manuel Bandeira apresenta uma interessante variação e poderia ser desmembrado em quatro blocos: (1) o primeiro verso onde João Gostoso entra em cena, verso largo, informativo, cuja aparente platitude é verticalizada com uma série de incrustações aliterantes em / r / alveolares que também se duplicam em / rr / velares, conferindo um índice de vibração a uma frase musical que devido ao comprimento poderia resvalar em frouxidão: “...eRa caRRegadoR de feiRa-livRe e moRava no moRRo da Babilônia num baRRacão sem númeRo”, e de modo suplementar destaca-se ainda a progressiva seqüência paronomástica: MoRava/ MoRRo/ núMeRo ; (2) o segundo verso que inicia com “Uma noite...”, e evoca uma preparação, um augúrio, a prefiguração do acontecimento, João Gostoso tomou a sua decisão, agora ele inspira; (3) a pequena enumeração em andamento binário ascendente, um acento fraco seguido de um forte, “Bebeu/ Cantou/ Dançou”, samba-canção-síntese onde João Gostoso, num derradeiro frenesi, sobe, fica alto, para depois cair; finalmente (4) a morte por água, os círculos concêntricos provocados pelo baque surdo, pelo fecho quase à maneira de um haikai — me perdoem os puristas da forma clássica japonesa.

Sunday, April 26, 2009

não é bem poesia, mas tudo bem

foto: daniela montano





letra de música não é bem poesia. sempre lanço mão de uma comparação para tentar clarificar minha opinião a respeito do assunto (mas sei que ao fim e ao cabo a recepção é que terá a última palavra sobre o que quer que seja, e, ultimamente, como a hibridação é uma vaga avassaladora a levar e lavar tudo de roldão, é natural aceitar que a poesia tenha se deixado seqüestrar pela mpb e seus devotos, além disso, os poetas se sentem desinflados porque sua visibilidade está longe daquela experimentada pelos compositores populares...), continuando, a comparação é a seguinte: a poesia está para a letra de música (palavra voando e inextrincável da melodia) assim como o teatro está para o cinema. é inegável que há um parentesco entre essas formas artísticas, mas cada uma tem a sua semiótica. elas se encontram (em algum lugar), mas não se confundem. agora, para encerrar de um modo bem tosco o que, a rigor, mal começou: acho que os poetas, de uns tempos para cá, começaram a se intrometer demais nas coisas da música popular, querem levar o debate para o andar de cima, para a "cobertura". eles é que falam em caetano, chico, paul mccartney, arnaldo antunes, etc. mas, onde andam, e onde entram nessa discussão os letristas-músicos "menos" cultivados e geniais, o pessoal da “lage”, como, p.ex., ismael silva, nelson cavaquinho, candeia, zé keti, tim maia, antonio marcos, e outros, hein? tá, alguém, chegando num passo acelerado, dirá que “eles são poetas também!”. an-han... mas, aí eu passo. deu pra bola. um homem só não é temido nem estimado.

Tuesday, April 07, 2009

novos lançamentos da editora éblis

cecília borges, autora de dente de leão



A Editora Éblis (http://www.editoraeblis.com/) abre o ano de 2009 com dois lançamentos: Dente de leão, de Cecília Borges e Congo negro, do poeta norte-americano Vachel Lindsay.

Dente de leão é o sexto título da bem-sucedida coleção poesia e o segundo livro de Cecília Borges, mineira que reside no Rio de Janeiro. Trata-se de um conjunto de 25 poemas onde o feminino, por um viés felizmente auto-irônico, articula-se a partir de uma série de takes que alternam cenas intimistas e o cotidiano dos cenários urbanos, boêmios e litorâneos até, todos marcadamente cariocas. Cecília une tais cenas e cenários, mostrando-os como formas de linguagem de desejos, fracassos e pequenas vitórias formando e deformando um sujeito que ruma em direção à vida, mesmo quando esta não corre a seu favor, lembrando, neste ponto, a trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski. Desvelando espaços da intimidade numa certa "crônica da vida privada", o sujeito poético que fala se deixa ver, instigando o voyeurismo de cada leitor, e se entrega a confissões nem sempre confiáveis, pois tudo é simulacro, já que "a vida é líquida/ bebida teor mil/ secreções na cama/ frases cuspidas entre fluidos/ feliz, a vida é água/ amanhã, a vida é sangue de dentro/ sometimes, sangue de fora/(...)".

Congo negro (o título original é The Congo – A Study of the Negro Race) é o poema mais significativo do poeta norte-americano Vachel Lindsay (1879-1931) e o primeiro título da coleção tradução da Editora Éblis. A intensidade rítmica do poema, que a tradução procurou, na medida do possível, recriar, faz dele uma peça poética para ser lida em voz alta, e quase cantada, ou até mesmo gritada, como queria Lindsay. Assim, sua inventividade está justamente em dar o corpo ao literário, fazendo as palavras do poema-partitura soarem pela boca do leitor, do mesmo modo que no revival pentecostal ou no encantamento vodu. Congo negro é, em certa medida, um poema fora do compasso do paladar contemporâneo. Congo negro trata-se de um poema “negrista”, isto é, um experimento eventual de linguagem no percurso textual do seu autor, como também o foram os “poemas negros”, de Raul Bopp, e “Essa Negra Fulô”, de Jorge de Lima, entre outros tantos. Como poema bom que é, Congo leva em seu bojo essas e outras contradições. Mas, as grandes obras de arte são o que são porque envelhecem naquilo em que podem envelhecer, deixando sempre a possibilidade de recriação, como se concretizou nesta primeira tradução para o português do poema de Lindsay, levada a efeito graças à inteligência e à sensibilidade de Luci Collin, professora de tradução e de literaturas de língua inglesa da UFPR, e também poeta e ficcionista.

LANÇAMENTO: Congo negro
16 DE ABRIL - PORTO ALEGRE - Palavraria, Rua Vasco da Gama, 165 - 19 horas

LANÇAMENTOS: Dente de leão
11 DE ABRIL - UBERLÂNDIA - Goma, Av. Floriano Peixoto, 12 - 20 horas
15 DE ABRIL - RIO DE JANEIRO - Cinemathèque , Rua Voluntários da Pátria, 53 - 19 horas
15 DE MAIO - PORTO ALEGRE - Palavraria, Rua Vasco da Gama, 165 - 19 horas

Tuesday, March 24, 2009

um chamado aos imprecisos



Abertas as inscrições para o curso/oficina de poesia "A PRECISÃO DO IMPRECISO", Módulo 1, 2009, com Ronald Augusto. A partir de 07 de Abril de 2009, terças-feiras, das 19 às 21h, na Palavraria – Livraria-Café.

Ronald Augusto dá continuidade à oficina de poesia cujas quatro últimas edições renderam grandes diálogos e poemas surpreendentes a partir dos exercícios propostos. A dinâmica da oficina permanece a mesma, ou seja, ao longo de 10 encontros semanais, os participantes trocam impressões exercitando a leitura crítica e a fruição estética, num corpo-a-corpo dialógico acerca da produção individual e das soluções de linguagem dos seus pares.

Na análise dos experimentos dos participantes da oficina, Ronald Augusto aplicará conceitos como: função poética da linguagem, hermenêutica, semiótica, versificação tradicional e livre, etc. Em outras palavras, no exercício mesmo da leitura de prazer, os alunos se familiarizarão com noções fundamentais da arte da poesia.

Contato: dacostara@hotmail.com, cel. (51) 9948 0569