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Showing posts from 2006

no assoalho duro (de um livro ainda no prelo)

me aproximo de tombar em sono suave
em bairros os cachorros latem
digo: cantam de galo no terreiro
à tarde esperam sobre esporas altaneiros
os galos a que me referi acima
ciscam em consideração às galinhas
também não sobra muito para o caderno
hão passado verão outono inverno
e muito está aqui enfeixado
e tudo mais que passou por apagado
já esse posfácio não sai fácil
feito os outros de bem outro hábito
escrever sem prévio rascunho
assim levado a reboque do próprio punho
não me é um bem como antes fora
faço papel de tolo jogral fora de hora
querendo levar a cabo missão sem solda e soldo
água em cuja superfície áporos a rodo
enquanto mais ao fundo lodo-areia
no qual não há que pise sequer de meias
e rimas oficiando o que já é um rito
acabar cuaderno escrevendo esquisito
felizmente minha fabulação manca
estou com travas na fala trancas
não há indulto possível para poeta
que não se toca ou diz não à caixa-preta
que melhor memória manuseável externa
pode haver para se ler os destroços da cena?
o pânico da audiência …

Viva Ávila / um poema de 1992

se for para a irmandade do idôneo
se for para dobrar a margem do logro
forca para a signagem do anômalo

sofreu para sulcar a margem bem pouco
foi-se para o bembom do acordo
à força e a torto como convém a

uns por nosotros

+ um poema do livro Disco, 1986

diz



trair a tradição



inventar a

xângo - caligrama visual

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dois poemas do meu livro Disco (1986)

por que dizer escuras
em lugar de escólios
escoras
? clarear cora? dizer
erva
verde


enerva
?


***

leitor ulisses


homero (
e) m
pessoa


ninguém
está de posse do
pós

(ronald augusto)

um poema em andamento

do meu destino os guerreiros
o silêncio e a hipocrisia
atados a lanças frias
montam a guarda sem termo

desnuda crua flora ou só
na margem do rio de sangue
mas pendida a testa franze
sobre o abismo do meu sol

malgrado soldados sem verve
maltrato no brandir das lanças
ela sem nem, num odor avança
mar e incêndio, mais se atreve

*

carne ainda adormecida
parto em cheia madrugada
levando a sombra lesada
do teu corpo em minha vida

quando meio-dia, gozo
no fogo de ceva carne
outros aceiros vincam a tarde
no seio que foi meu repouso

sob a erva a argila dura
rés de orvalho ou o meu suor
dão à tarde certo odor
de terra e de carne obscura
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Complaint Épitaphe

la femme
mon ame:
ah! quels
appels!

pastels
mortels
qu’on blâme
mes gammes!

un fou
s’avance
et dance

silence...
lui, où?
coucou.

a fêmea
minha gema
ah! os tais
ais!

pastéis
mortais
degradem
meus degradês

um doido
avança
tardança

silêncio...
onde, ele?
cuco.

(tradução livre de um poema de jules laforgue)

um dos poemas d'o amigo

levantou o vento telhado de zinco
(não era o mesmo céu visto da rua)
nossa gente foi para a calçada

levou o vento a telha dos meninos
(não era céu para vontades viúvas)
nossa gente a trote de manada

poema salvador/ba

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a folhagem estica um tentáculo
prateado para fora da janela
não é a de um prédio muito elevado
sempre reluzentes bracelestes

no passeio embrulhada timbrística bulha
de metais diversos
os harmônicos da fala ameaçam fender
o espaço em dois (para divisar:
a água recebe raio de luz e permanece
unida)

o tempo deita um rio
à sua beira num sorvo só percebe-se
que a matéria sorvida espirala-se
ligeira no oco do tronco curva-se para
não ofender toma o desvio primeiro e o
seguinte
água do tempo
arrasta influente

LN

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não há quem não
(e que pareça algo
imperecível e
prestável em terra
de bacharéis e
carreirismo a meia
porra) quem não
meta seus talheres
de prata em questão
tão cabelo carapinha
num esforço para recolher
iguarias acerca e
aquém da “problemática
do negro”

e dentre esses não
poucos emergem do
claustro sem o estimado
cum laude
mas boa parte em que pese
os serviços prestados
passa felizmente
em brancas nuvens
sonhando com os piores
assuntos que demandam
anos de estudo e
meditação

correm para mim
seus cuidados
como quem corre para a cruz
encravada
em terra de ninguém


porto alegre, 1997

sobre matiz de estação de dione veiga vieira - há 23 anos

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1. realmente até então
eu não havia lido o seu livro
com a atenção que ele merece
foi preciso dia vadio
para eu me deter sobre ele

dia que pegou chuva mais sol

e as coisas que direi acerca
do matiz de estação em realidade
me deixarão no limiar

do chato certame da crítica


2. o poema-programa que abre o livro dá
margem à brincadeira entenda brincadeira
como: relação sadia e ágil com a ventura
dura da existência então fiz assim:
ao verdadeiro convívio
da palavra ao gosto
ao finito aos traços aos fios aos trilhos


3. o crítico manja pouco de poesia
o poeta é um puxa-saco do poema
só o poema ele mesmo é que sabe
como explicar-se
ele mostra suas evidências
e incomoda com suas inevidências
por isso eu acho que os teus poemas me revelaram
duas coisas preliminares importantes

princípio de comunicação

assim ó:
“uma tarde roçando a margem dum mar
interno”
e:
“compasso de tempo
íntimo”

pincel-princípio de comunicanção

4. o matiz de estação
existe no signo
e na encarnação sensual das coisas

a enumeração

enumeração de todos os sexos
da …

amaralina e um poema de salvador

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acrílica sobre tela, rosa marques, 2004


mar marrom na beira onde
as presas da espuma fria

o velho sapo senil encasulado em linho
ou todo de branco
escoltado por um par de nixes
sararás
até a entrada do maximbombo

uma delas esconde
um sestroso sorriso
risinho sob a gola da camiseta azul
os olhos um passo a frente
dizem o que não os lábios

a outra torce o beiço
contrariada por estar às ordens
de um velho excêntrico e tão limpo e infenso
à nódoas de lama sórdida
num dia chuvoso
como esse

(ronald augusto)

poema + ogumletras

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Começa um assunto e não o encerra

sopa de misso fumegante
logo não vejo refletidas
no divino caldo as árvores
do quintal da antiga vizinha

comi pão preto por mim feito
e não aquele que comentam
uns ter o diabo em pessoa
amassado para o menu
dos reis que não pagam a conta

e o trovador que trove a dona
que o pariu malgrado o baú
aberto como se trombeta
ao longe ao perto cortesão

diz bem mesmo quando maldiz

Paulo de Toledo entrevista Ronald Augusto
Para que serve a poesia?
Esta pergunta me traz à memória o poema “O porto sepulto”, de Giuseppe Ungaretti, do qual destaco o seguinte trecho: “Di questa poesia / mi resta / quel nulla / d'inesauribile segreto”, que me permito tresler assim: poesia, essa coisa nenhuma de inexaurível segredo. A poesia não serve para coisa alguma, nem se presta à transmissão de mensagens. Seu fazer parece querer ficar rente àquelas zonas mais obscuras e imprecisas da experiência. Seu movimento sígnico, em realidade, busca não dissimular, mas sim problematizar, um aspecto crítico da linguagem, ao qual não se dá a devida atenção, a saber: esta crença infundada de que só a linguagem articulada e seu corolário, uma objetividade desinteressada e quase transparente, é capaz de iluminar e decodificar o íntimo dos seres e das coisas. Na prática, o resultado é bem outro. Tal pretensão de desvelamento acaba, ao contrário, projetando sombras de sentido e mal entendidos em…

Wu t’i

duro assistir a movimentos que não os dela
imaginá-los nem pensar
uma flor que cai no ombro do vento
a larva da seda desentranha-se fio a fio
fria artefinalização
drapeja o lume em gotas ascendentes
coração encarvoado
fluido no olho do espelho o error
nuvem borrando o tempo
noite de palavras secretadas
a lua rola ao seu degelo
parece distante o Morro do Engenho Velho
no céu uma ave aparece medito
digo-me:
ainda não mandei notícias


maio, 1991

ao 13 de maio

xenófanes de colofão 570-528, a. c.
tapeçarias VII, 2

egípicios: deuses abanam narizes chatos
e são negros de pêlo duro

trácios: divergindo deles sustentamos
que deuses têm olhos verdes e cabelo ruivo

*

virgílio 70-19, a. c.
fragmento da II bucólica

o crudelis alexi, nihil mea carmina curas?
menalcan, quamuis ille niger, quamuis tu candidus esses?
pois, cruel aléxis, menalcas é negro, e agora?
considera isto, rapaz formalista, não te escores muito nas cores.
o formose puer, nimium ne crede colori!
alba ligustra cadunt, vaccinia nigra leguntur.
belas madeixas, pétalas alvas, no que grisalhas, caem
adubando o jardim retinto dos jacintos.

poema de salvador com pintura de rosa marques

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sonhei comigo sonho sob pórticos
de luz tropical claridade verde
que eu julgava ser o espelho onde esta
face (agora inclinada sobre linhas
toscas de recordação puramente
imaginária) espelho onde esta face
pudesse mirar-se com minuciosa veracidade

sonho de vaidade vácua
que paraíso guardará a menor semelhança
que seja com a cara inexistente que
às vezes afivelo sobre a face para
melhor me desvelar?
Cientes del mundoRonald Augusto(tradução Ines Hagemeyer)escarnio de moneda jugadaforjada de manera siniestraa lo filósofo eminentey a lo poeta sobre todoque ni por ruego ni por cobiciadejan de hacer justiciasi dejaran un dia de hacerlapalmo a palmose alejaría de ellosde tal suerte que en el campo adversariono harán de tolerante pero en casapresionando el acelerador (terreno escabroso)terminarán con sus patas flotandoambos sosteniendo el pretextode ser el primero en forjarsu modelo antes que el outrola “piedra de toque”: pagar con la misma monedaen cuanto a mí me arreglo con menosvoy girando la misma moneda y éstoequivale a decir maldiciendo: ellado necio es el docto y vice versa
jejum ergo coroa destronante
jejum disse jesucristo enquanto
levava à testa renhidos picos

cesto vazio seco o pão ázimo
nem azia nem pedrarias beco
básico câmara contraespiã

movediça e especular
desdobrando braços no mais íntimo
do palácio elísio de kublai khan

um poema cheio de dedos

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que deus em sua teia viúva a tenha
aquela época clara em que
cabra seco carne branca de peixe convertia a duras penas
etíope em mussum músculos música
tirando proveito da cena circundante
enquanto revirava algo como o monturo da
metáfora o kitsch da função poética da linguagem
e para não entrar em atrito com o que regrava a letra
homens de letras rascunhavam seus
poemas nodosos reservando em alguns
instantes dessas obras abertas (alavancas
armadas da impureza rarefeita)
um lugar legal ao corso negro
uma fossa de onde negros após entrados
saíam asperamente apetrechados
assim sendo eu por exemplo concordante
com o que à época vigia
viria a público como
aquele negro urubu de fraque
uma negra cabelo adelgaçado a fogo
(apara do estupro escravagista) por sua vez
sem réstia de dúvida consistiria um destaque
libação libidinosa a escorrer sobre
toda a audiência ovacionando sem pudores
de pé a entrada da mulata carnuda adoração odorante
mas aos poucos outros vieram erupções
em solo estéril
los porcinos y tarados protecto…

alô, quem fala?

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Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No assoalho duro (2007), Decupagnes assim (2012) e Cair de Costas (2012). Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring - Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista ATO (MG); www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. É diret…

um dedo de prosa

GORRO DA MEIA NOITE

A nota hesitante: o anuviar do factível da cor, e esta fazia há pouco uma coisa renunciar a encarnar-se em outra. O limiar de um de-gesto; golpe de rama, pulsão. Figura a esboroar-se quieta - consoante demuda - de maneira ininterrupta. Destrinça ou algo de rixa entre almas bracejando em pixe pálido. Baixo impacto de areal morno, humectante.

O passeio, a excursão ilusionista não obdura o bastante: montes mais a silhueta de sua pretidão e ilhas ao longe, ondulação no horizonte. Telhado entre arvoredo.

Tela de teatro trespassada por oblonga observação, e tudo que esvai-se ponto de fuga, emerge pois então afivelando cara quase convexa e maciez sombria em logo plana pregueada superfície - tíbio lápis-lazúli assoma. Não obstante, um olhar em abismo se resseca frente ao drapejar amplo e impenetrável desse tecido que não é aquém de janela alguma.

E a exemplo das ínfimas cintilâncias muito acima, et pour cause, em torno a nada, assinaláv…