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Showing posts from March, 2017

ao debate

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“me convidam para um debate por causa da minha literatura ou por que sou negro?”
quando convidam um escritor não-negro para participar de uma mesa, aparentemente é por causa da sua literatura; porém ele é convidado justamente por ser não-negro, porque ele é um igual, porque não é considerado um corpo estranho, porque os envolvidos querem se reconhecer no sujeito que vai palestrar para eles; talvez tudo aconteça desse jeito, isto é, sem que ninguém desse círculo de mesmidades pense a respeito, por simples e cruel inércia; talvez.
quando convidam um escritor negro para um debate é por causa de sua literatura e porque ele é um sujeito que combate o racismo onde quer que se apresente.

quando convidam um escritor negro para compor uma mesa apenas por causa de sua obra, é porque nem ele nem a curadoria sabem que se trata de um negro.

a caminho

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1
à custa de uma ideia rebaixada não logrei mais do que este entardecer e esta aldeia de áscuas sujas à exaustão
diante de suas portas – sem número determinado, seguramente mais do que duas, com o obséquio de não ultrapassar uma dezena – uma luzerna feroz sorriso bramoso no quadrículo do guichê cuspo de barítono trifauce que esbarra o andar de quem vem
deparar sem aviso do lado de lá do farpado a visão da piranha que nos há parido sua sombra gaiata desprovida de sombra ainda não é o mais duro ou coroável matar saudade e soledade abraçando-se três vezes (reiteração) a todo o seu vazio de morta ainda não é o que mais pode o hades
esta aldeia que se presta a tigela escura ideografia onde a animalha ínfera vem beber do meu remorso infuso no caldo da indesejada deia das gentes

2
ao apartar a cunha da árvore o verde debaixo das unhas intérprete do rugitar de oito sílabas no côvado de lado da velha cantica
inciso o ouvido porfioso pérfido quando em revista passa a commedia

nem mercado editorial nem redes sociais

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A afirmação segundo a qual a literatura se esgotou ou se resolve, hoje, nessa trama de reconhecimentos recíprocos do facebook, me parece uma generalização indevida; trata-se de afirmação recorrente (o genérico da aposta em um quadro de falência de algo) que agora dá as caras mais uma vez e, como de hábito, costumizada aqui e ali. Felizmente, a literatura é coisa muito mais complexa. Sou da opinião, inclusive, de que ela não se confunde nem com o mercado editorial, nem com as redes sociais. Podemos estabelecer relações entre essas realidades, podemos até mesmo sucumbir circunstancialmente diante de certo estado de coisas, mas tanto o mercado, como o facebook, são segundos em relação à literatura. Isto é, devem ou deveriam ser coadjuvantes no processo. Na década de 1950 os poetas concretos (ou ao menos três deles) deram por encerrado “o ciclo histórico do verso”. Recentemente alguém decretou o fim da história. Alguns artistas e/ou fast thinkers têm essa mania de tentar projetar seus pró…