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um poema visual

kânhamo, 1987

dois poemas de manuel bandeira

O bicho Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. No poema “O bicho”, Manuel Bandeira recorta a silhueta de um bicho “Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos”. Num exame mais cerrado, descarnado de qualificativos poeticamente corretos, o poeta começa a ajustar o foco da sua máquina verbal de produzir efeitos, e numa progressão de enquadramentos, partindo desde o mais difuso até o mais nítido e duro, nota que “O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.” O desenlace do poema, que não chega a surpreender - acho inclusive que essa possibilidade nem é a que mais interessa a Manuel Bandeira -, nos diz que o bicho “era um homem”, ou que o bicho fora um homem. Com efeito, o poeta não se surpreende com tal metamorfose regressiva (notar a degrada...

não é bem poesia, mas tudo bem

foto: daniela montano letra de música não é bem poesia. sempre lanço mão de uma comparação para tentar clarificar minha opinião a respeito do assunto (mas sei que ao fim e ao cabo a recepção é que terá a última palavra sobre o que quer que seja, e, ultimamente, como a hibridação é uma vaga avassaladora a levar e lavar tudo de roldão, é natural aceitar que a poesia tenha se deixado seqüestrar pela mpb e seus devotos, além disso, os poetas se sentem desinflados porque sua visibilidade está longe daquela experimentada pelos compositores populares...), continuando, a comparação é a seguinte: a poesia está para a letra de música (palavra voando e inextrincável da melodia) assim como o teatro está para o cinema. é inegável que há um parentesco entre essas formas artísticas, mas cada uma tem a sua semiótica. elas se encontram (em algum lugar), mas não se confundem. agora, para encerrar de um modo bem tosco o que, a rigor, mal começou: acho que os poetas, de uns tempos para cá, começar...

novos lançamentos da editora éblis

cecília borges, autora de dente de leão A Editora Éblis ( http://www.editoraeblis.com/ ) abre o ano de 2009 com dois lançamentos: Dente de leão, de Cecília Borges e Congo negro, do poeta norte-americano Vachel Lindsay. Dente de leão é o sexto título da bem-sucedida coleção poesia e o segundo livro de Cecília Borges, mineira que reside no Rio de Janeiro. Trata-se de um conjunto de 25 poemas onde o feminino, por um viés felizmente auto-irônico, articula-se a partir de uma série de takes que alternam cenas intimistas e o cotidiano dos cenários urbanos, boêmios e litorâneos até, todos marcadamente cariocas. Cecília une tais cenas e cenários, mostrando-os como formas de linguagem de desejos, fracassos e pequenas vitórias formando e deformando um sujeito que ruma em direção à vida, mesmo quando esta não corre a seu favor, lembrando, neste ponto, a trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski. Desvelando espaços da intimidade numa certa "crônica da vida privada", o sujeito poético que...

um chamado aos imprecisos

Abertas as inscrições para o curso/oficina de poesia "A PRECISÃO DO IMPRECISO", Módulo 1, 2009, com Ronald Augusto. A partir de 07 de Abril de 2009, terças-feiras, das 19 às 21h, na Palavraria – Livraria-Café. Ronald Augusto dá continuidade à oficina de poesia cujas quatro últimas edições renderam grandes diálogos e poemas surpreendentes a partir dos exercícios propostos. A dinâmica da oficina permanece a mesma, ou seja, ao longo de 10 encontros semanais, os participantes trocam impressões exercitando a leitura crítica e a fruição estética, num corpo-a-corpo dialógico acerca da produção individual e das soluções de linguagem dos seus pares. Na análise dos experimentos dos participantes da oficina, Ronald Augusto aplicará conceitos como: função poética da linguagem, hermenêutica, semiótica, versificação tradicional e livre, etc. Em outras palavras, no exercício mesmo da leitura de prazer, os alunos se familiarizarão com noções fundamentais da arte da poesia. ...

a indisciplina do leitor-colaborador

a leitura criativa, "a lápis", de esboço e estudo, interessada e interessante, realmente re-inventa o texto de partida, inclusive no aspecto sintático. re-inventa-o no sentido em que ele é proposto noutros termos no eco ou no oco da algaravia do intelecto do leitor, "lugar" produtivo da réplica futura. se o como e o-que-dizer são inextrincáveis, então, quando a leitura "indisciplinada" desentranha uma pluralidade de sentidos, também traz à tona diferentes modos de se agenciar os elementos materiais da linguagem: identificação fundo-forma. portanto, o poema do poeta continua quieto, ali, na página do volume caprichoso. nenhum crime de lesa-autenticidade foi perpetrado. mas, em contrapartida, o leitor criativo agora leva entesourado em seu espírito uma rosácea de formulações possíveis para esse mesmo poema. duplo virtual, proliferante e indecidível, vazado noutro código e em suporte rarefeito. leitura-experiência.

arquitetura não é bem arte

Como já comentei em artigo publicado no website www.sibila.com.br , é justo comemorar o surgimento e o reconhecimento internacional do Museu Iberê Camargo, por tudo que ele representa e pelos temas que desencadeia, tais como: 1) a possibilidade de conservação adequada do acervo do artista dentro de exigências técnicas mais avançadas; 2) a presença de uma obra arquitetônica mais ou menos bem integrada, em termos urbanísticos, a uma zona importante da cidade; 3) a ratificação da imagem de Porto Alegre como uma cidade voltada, desde uma tradição recente, para as artes visuais — pois, além da Bienal do Mercosul que já se constitui num evento significativo no calendário das exposições e mostras brasileiras, poderiam ser lembrados ainda os espaços independentes de produção e reflexão do Torreão e da galeria Subterrânea —, enfim, a nova sede da Fundação Iberê Camargo é um fato cultural importante que se integra ao panorama das práticas e poéticas não-verbais da cidade. No entanto, outr...