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no assoalho duro (de um livro ainda no prelo)

me aproximo de tombar em sono suave
em bairros os cachorros latem
digo: cantam de galo no terreiro
à tarde esperam sobre esporas altaneiros
os galos a que me referi acima
ciscam em consideração às galinhas
também não sobra muito para o caderno
hão passado verão outono inverno
e muito está aqui enfeixado
e tudo mais que passou por apagado
já esse posfácio não sai fácil
feito os outros de bem outro hábito
escrever sem prévio rascunho
assim levado a reboque do próprio punho
não me é um bem como antes fora
faço papel de tolo jogral fora de hora
querendo levar a cabo missão sem solda e soldo
água em cuja superfície áporos a rodo
enquanto mais ao fundo lodo-areia
no qual não há que pise sequer de meias
e rimas oficiando o que já é um rito
acabar cuaderno escrevendo esquisito
felizmente minha fabulação manca
estou com travas na fala trancas
não há indulto possível para poeta
que não se toca ou diz não à caixa-preta
que melhor memória manuseável externa
pode haver para se ler os destroços da cena?
o pânico da audiência minutos segundos antes
o vômito no saco da crítica no chão restante
barra o sono essa conversa errorosa
melhor num outro dia dar sítio à prosa

(ronald augusto)

Comments

Anonymous said…
Por esses e outros poemas é que te elegi meu professor! Obrigada!
Juliana

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