Quando
o mundo branco se põe a fazer elogios desmedidos a respeito do trabalho ou da
personalidade de um negro, sempre me preparo para o pior. Por favor, não me
venham falar em baixa estima, que estou na defensiva e tudo mais. O furo aqui é
bem mais embaixo. Segundo Friedrich Nietzsche “o comentário demasiadamente
elogioso produz mais indiscrições que a censura”. As louvações, neste caso, têm
fundo culposo; se efetivam sem que
possamos lhes prever as conseqüências. Desvelam a imprudente face do
preconceito. Para compensar toda uma série de episódios aniquiladores do ânimo
de muitas personalidades negras fundamentais para a nossa cultura, o senso
comum carrega nas tintas da apologia purgativa sobre aqueles que parecem ter
vivido vidas que poderiam ter sido, mas que não foram. Parodiando o adágio
relativo à vingança, pode-se dizer que tal espécie de elogio é um prato que se
oferece frio ao seu maior interessado. Por essa razão, Cruz e Sousa é o Dante
negro; Leônidas da Silva, o Diamante Negro, Elizeth é a Divina, e assim por
diante.
VILLON, François n. 1431 EPITÁFIO aqui neste lugar jaz e dorme alguém que Amor fulminou com flecha, um escolar pequeno e pobre. nome: françois villon. vilão, a pecha. não teve nunca escritura de terra. doou tudo, o vulgo comenta à larga: cestos, pães, estrados, mesas. comparsas, dizei esta versalhada: Rondeau Repouso eterno seja dado a este, Senhor, e claridade desmedida, pois em vida bolso sempre raso teve e no seu prato coisas mal cosidas. rente cortaram-lhe a barba nascente, como a um nabo que se rapa a película. repouso eterno seja dado a este. Rigor o forçou ao exílio, como se peste, e esfolou-lhe a bunda de pelica, não obstante haver dito ele, à risca: “eu apelo!”, termo de fácil exegese. repouso eterno seja dado a este. ÉPITAPHE Ci gist et dort en ce sollier, Qu’amours occist de son raillon, Ung povre petit escollier, Qui fut nommé françois villon. Oncques de terre n’ot sillon. Il donna tout, chascun le scet: ...


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