cair de costas




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Carlos André Moreira
Apropriar-se da tradição para trabalhar questões de sua realidade com voz própria é o desafio a que se propõe todo artista.
Uma espécie de inventário desse desafio é o que se pode encontrar na antologia Cair de Costas, que o poeta Ronald Augusto autografa amanhã, às 19h, na Palavraria - um apanhado de obras anteriores que formam um panorama da primeira década de carreira do poeta, músico, ensaísta e editor.
O lançamento será precedido de um pocket show com Marcelo Delacroix, Simone Rasslan e Alvaro RosaCosta, interpretando canções compostas por Ronald Augusto - também ele músico, integrante do projeto Os PoETs. As duas atividades, contudo, não se confundem. Para o autor, a poesia nasce de um pensamento ligado à palavra, e as músicas se constroem primeiro como melodia.
Augusto revisita em Cair de Costas obras produzidas entre 1983 e 1992 - não estão incluídos livros mais recentes como Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro(2007). Assim como o autor recupera seu próprio percurso criativo, o leitor é convidado a apreciar a obra também em retrospecto. Os poemas de Vá de Valha, livro de 1992, abrem o livro, que retrocede até os trabalhos incluídos na obra de estreia, Homem em Rubro (1983).
- Infelizmente, isso não é uma invenção minha. Nas reuniões do projeto, recordei de um livro que o João Cabral de Melo Neto fez pela editora Sabiá, do Fernando Sabino, no qual ele organizou do mais recente para o mais remoto. Acho que isso vai na direção daquele desejo que todo artista tem de mostrar o trabalho mais recente, aquilo que foi feito ontem, digamos assim - comenta.
No caminho, encontra-se uma poesia que, sem ser declaradamente combativa, apropria-se de conquistas contemporâneas da forma poética - a visualidade e a concentração simbólica dos concretistas, por exemplo - para falar de questões afeitas ao Brasil das últimas décadas, como a suposta dissociação entre cultura popular e erudita e o lugar do negro na sociedade brasileira. Incluindo aí episódios do cânone da literatura nacional, nos quais o preconceito contra o negro era naturalizado. Como a trajetória é vista em reverso na ordem escolhida para o livro, passa-se de experimentos mais radicais de visualidade para poemas que aproveitam o falar coloquial como matéria-prima.
- Minha estreia com o Homem ao Rubro tinha o aspecto de fugir do cânone, da linguagem culta, vista como a representação da linguagem do homem branco todo-poderoso. Então, falar a língua baixa, rebaixada, era importante naquele momento como tomada de posição.
Mas a poesia de Ronald Augusto não se filia com facilidade ao conceito de "combativo" - e, segundo o autor, esta é uma posição consciente.
- Minha relação com essa vertente da literatura negra sempre foi um pouco fora, um pouco dentro, porque meu trabalho poético não quer se filiar a nada, de forma estrita. A minha posição é sempre da crítica interna: é preciso, primeiro, ser poesia, para depois ser poesia negra, feminista, de esquerda, o que for. A minha bandeira é a forma - diz.

Cair de CostasRonald Augusto
Éblis, 200 páginas, R$ 30.

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