Skip to main content

por via da linguagem



A poesia não existe, o que existe é a obra do poeta. Seu percurso poético-textual; seus poemas. Quando pensamos em poesia devemos pensar na linguagem de alguns poetas. Isso sim é verificável. A ideia ingênua ou romântica de poesia, isto é, a poesia antes do poema (forma verbal), é que está na base dos nossos primeiros exercícios poéticos: quando começamos a escrever tentando imitar uma imagem consagrada de poesia (que se aproxima do escrever bonito que lança mão de frases excessivamente adjetivadas e que são quase que o decalque das nossas emoções).

Por outro lado, mesmo o poema, esse objeto verbal que visa a um efeito estético e a uma deriva semântica, não é um vaso sacrossanto que guarda, como num passe de mágica, o fugidio instante poético; o poema, segundo Octavio Paz, é essa máscara que oculta o vazio, em outras palavras, o poema é linguagem. Toda a aventura da criação poética, todas aquelas definições que nutrimos a respeito do fenômeno poético devem ser testadas por via da linguagem. Tudo se dá, inapelavelmente, na superfície e no interior da linguagem.

Então o conhecimento da poesia é o conhecimento dos poetas (não da vida deles), de seus poemas. Dos êxitos e dos fracassos de linguagem levados a efeito por eles.



Parte superior do formulário

Comments

Popular posts from this blog

em inglês, por favor

3 poemas de à ipásia que o espera traduzidos para o inglês folhas de louro coroavam o árduo trabalho do herói e do poeta agora temperam apenas o feijão rotineiro que consagra a vianda sempre envolvida com zelo em pano puído prefiro-as assim folhas de louro mortais colhidas pelas mãos úmidas dessa abissínia nutriz do meu desejo bay leaves crowned the hard work of hero and poet now they merely season the daily beans that consecrate the meal always wrapped with care in a cloth raggedly i prefer them that way mortal bay leaves harvested by the moist hands of this abyssinian nurturer of my desire [Tradução de C. Leonardo B. Antunes] à custa das pétalas do ventilador de teto o bafo morno da noite focinha o sono adorado de ipásia a água rápida do arroio um apanhado de carqueja o longo dia inteiro do verão at the expense of the petals of theceiling fan...

ÉPITAPHE

VILLON, François n. 1431  EPITÁFIO aqui neste lugar jaz e dorme alguém que Amor fulminou com flecha, um escolar pequeno e pobre. nome: françois villon. vilão, a pecha. não teve nunca escritura de terra. doou tudo, o vulgo comenta à larga: cestos, pães, estrados, mesas. comparsas, dizei esta versalhada:  Rondeau Repouso eterno seja dado a este, Senhor, e claridade desmedida, pois em vida bolso sempre raso teve e no seu prato coisas mal cosidas. rente cortaram-lhe a barba nascente, como a um nabo que se rapa a película. repouso eterno seja dado a este. Rigor o forçou ao exílio, como se peste, e esfolou-lhe a bunda de pelica, não obstante haver dito ele, à risca: “eu apelo!”, termo de fácil exegese. repouso eterno seja dado a este. ÉPITAPHE Ci gist et dort en ce sollier, Qu’amours occist de son raillon, Ung povre petit escollier, Qui fut nommé françois villon. Oncques de terre n’ot sillon. Il donna tout, chascun le scet: ...

antipoema para a literatura branca brasileira

  por uma literatura de várzea por uma literatura lavada de notas de pé de página por uma literatura sem seguidores por uma literatura não endogâmica por uma literatura infiel à realidade por uma literatura impertinente por uma literatura não poética por uma literatura que não capitule à noção de "obra", acúmulo de feitos por uma literatura que não seja o corolário de oficinas de escrita criativa por uma literatura que não sucumba à chapa de que o menos é mais por uma literatura desobediente ao mercado livreiro-editorial por uma literatura imprudente por uma literatura sem cacoetes, isto é, o oposto do que faz mia couto por uma literatura que não se confunda com o ativismo de facebook por uma literatura que não seja imprescindível por uma literatura sem literatos por uma literatura, como disse uma vez lezama, livre dos tarados protetores das letras por uma literatura sem mediadores de leitura por uma literatura não inspirada em filósofos fr...